Ainda estamos na segunda semana da enfermaria. Ontem acabei de viver um dos momentos mais felizes em toda a minha vida acadêmica. Disse pra uma mãe, que estava há mais de 2 meses no hospital, que ela poderia levar sua filha pra casa. Que estava tudo bem. Essa mesma mãe, tinha acabado de vir do velório de sua própria mãe, e ainda assim, sua felicidade foi tão grande que transbordou em forma de tremores em suas mãos. Maria Alice nasceu com 28 semanas, e contra todas as expectativas estava totalmente saudável e indo para a casa.
No dia seguinte, um novo paciente, uma nova história, a cada alta abrimos um novo leito e também caminho para entrar em mais uma vida. Lendo o prontuário já fiquei inquieta. Era longo, complexo, reunia a história de 5 meses de sofrimento. Coincidentemente, o mesmo tempo de existência daquele pequeno ser. Algo me dizia que eu não estava preparada para encarar esse desafio. Meu instinto de autoproteção tentou me manter longe. Mas me disseram, "você vai ser médica, você deve aprender a lidar com essas situações, vai ver coisa muito pior", não discordei. Juntei minha coragem e fui. Entrei no quarto e encontrei um berço aquecido, e uma mãe com o olhar mais assustado que já vi. No berço, estava Alice, dessa vez não tinha Maria, tão pequetita e já tinha uma gastrostomia e uma traqueostomia que carregaria para a vida toda, além disso, tinha os membros fletidos e os olhos perdidos. Agi naturalmente, examinei a criança e conversei com a mãe. Ótimo, saí do quarto, ufa!
Nesse mesmo dia cheguei em casa e num cochilo durante a tarde, sonhei com ela. Repassei todas as complicações clínicas que ela havia passado, imaginei o sofrimento daquela mãe diante da ausência de perspectiva de melhora. Da ausência de perspectiva de vida. Acordei triste. Pensando em como a vida é injusta e em todas as coisas maravilhosas do mundo que ela jamais experimentaria.
Hoje, novamente fui ver Alice, dessa vez acompanhada pela minha professora, uma sra. de uns 50 e muitos anos, pediatra, com fala tranquila e gestos gentis, foi inspirador ver o carinho e o cuidado com a mãe. Surgiu em mim o sentimento de estar cuidando do doente errado. Percebi que eu faria muito mais diferença na vida da mãe do que da filha! Mas quando saímos do quarto, minha professora, a sra. gentil, desabou, seu olhar era de total desespero. Logo ela se explicou. Me disse que cuidava da outra filha daquela mãe, de 4 anos, uma criança saudável, de uma família estruturada e feliz, que acompanhou o planejamento daquela gravidez, e que ver aquela situação era atormentador, a mãe era apenas uma sombra do que já havia sido.
Alice nasceu com 26 sem e foi reanimada por 40 min! Sim, 40 min na primeira vez e 25 min na segunda!! Quando pensei nisso senti minha pernas amolecendo, meu olhos ficando úmidos. O que fez com que ela fosse reanimada por tanto tempo? Covardia? Prepotência? Esperança?
Nós, médicos, temos muito problema com encarar perdas, e a morte é a maior delas. Melhor deixar que ela perca a vida do que deixar que ela morra, correto? Acredito que somos covardes a esse ponto.
Ou seria o excesso de confiança? O colega confiou demais que as coisas ficariam bem se ele se esforçasse, que só dependeria dele e que o mundo se curvaria diante de sua vontade. Era só continuar e tudo ficaria bem.
Mas no fundo, eu só quero acreditar que o que moveu os movimentos desse colega, tenha sido esperança, por já ter visto Maria Alices por aí, ele acreditou que deveria insistir. Mesmo contra todas as evidências. Não seria, em vez de um desafio ao Divino, uma fé cega em sua piedade?
Não sei. Diante disso, só tenho a pedir a Deus que eu tenha discernimento para saber quando parar e ainda conseguir acreditar em mim mesma quando eu disser: "fiz tudo o que eu pude".
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