Sentimento estranho. Parece que não é real. Quando temos que lidar com fragilidade da vida todos os dias era de se esperar ela não nos surpreendesse. Entretanto, quando recebi a ligação da minha mãe dando a noticia da morte de alguém da minha família, fiquei sem chão. Morrer é natural, a morte é inerente à vida. Estou cansada de saber. Estou cansada de ver. Mas todo mundo tem aquele sentimento de que não acontece comigo, não acontece com aqueles que eu gosto. Todos aqueles que eu amo vão morrer bem velhinhos e lúcidos. E de repente, meu tio, alguém de 52 anos, vai embora sem avisar, no dia anterior sua vida estava como sempre foi, cheia de comida, bebida e alegria. E no dia seguinte tudo acabou. Estranho que a risada dele não sai da minha cabeça, "dá um beijin no tio", ele sempre dizia. Estranho que não parece real. Eu passava meses sem o ver, não tínhamos muito contato, mas sempre tive carinho por ele. E agora, não consigo acreditar que eu nunca mais vou ouvir sua risada e que nunca vou poder aceitar o seu convite para "comer uma picanha".

Como se não bastasse a saudade, ainda vem o medo. Quando a morte se torna tão real na nossa vida, de repente todos se tornam tão frágeis! Estou com medo. Muito medo de perder mais alguém.  Meus problemas da faculdade se tornaram tão pequenos, e minha motivação para lidar com eles se tornou menor ainda. Tudo parece insignificante diante da fragilidade da vida. Tudo parece sem sentido e sem propósito. Minha vontade é não fazer mais nada, colocar as pessoas que eu amo em uma bolha e ficar ali perto delas até que o fim invariavelmente chegue para todos.

Mas essa coceira não me deixa em paz.

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