A época que me deixa mais feliz é o fim do ano, adoro fazer planos para a ceia, os preparativos, a comilança, as roupas novas, as maquiagens, o amor que parece se espalhar no ar. Mas esse ano as coisas foram diferentes. Ninguém estava muito animado com os preparativos, ninguém tava fazendo questão de escolher uma roupa bonita. A receita inovadora não saiu como esperado. A comida tinha sabor de sobrepeso. A gordura tinha gosto de infarto.
O dia 31 de dezembro amanheceu nublado, triste, e apesar dos sorrisos no rosto e da cerveja no copo, o céu parecia refletir com mais sinceridade o sentimento das pessoas do que seus próprios rostos. O luto provoca reações estranhas na gente. De repente estamos rindo de uma piada engraçada e no segundo seguinte pensamos o quanto o tio teria rido se ouvisse a piada (a risada dele era sensacional), e o quanto gostaríamos que ele estivesse ali pra ouvir e quando nos lembramos que ele não está, dói tanto!  Não entendo por que estou sofrendo assim, a gente se via tão pouco! Nunca fui na casa dele depois que se mudou (e isso deve ter uns 5 anos), não conversava com 2 dos 3 filhos dele e ainda culpo a mulher dele por alguns traumas de infância. Mas não consigo tirar a risada dele da minha cabeça! A gente se via pouco e sempre de forma rápida, mas mesmo assim, era sempre suficiente para ouvir sua risada (quase sempre da própria piada). Será que é culpa? Será que eu me sinto culpada por não ter sido mais presente? Será que eu sou a pessoa horrível que acabou afastando alguém muito legal da minha vida por pirraça dos parentes? Será que eu poderia ter feito alguma coisa por ele? Ou será o medo, após ter percebido que a morte também pode atingir aqueles que eu amo? 

Não sei. Só sei que quando a contagem regressiva terminou eu não tive vontade de gritar as boas-vindas ao ano que começou, o espumante não estourou de primeira e ninguém se abraçou de imediato. Ficamos olhando os fogos no céu sem ter como desejar felicidade um para o outro. Há alguns anos que eu sempre mentalizo meus desejos para o ano seguinte e é o que eu desejo a todos é "saúde e sucesso", esse ano o que eu disse foi "2018 vai ser melhor".  Os abraços que trocamos em família foram silenciosos e pareciam aqueles trocados no velório. Daqueles que quanto mais a gente aperta mais a pessoa chora, como se a gente tivesse espremendo as glândulas lacrimais com o abraço.

Não consegui saborear a importância desse ano que começou, o último ano da graduação! Nem toquei nesse assunto. Na verdade não consegui sequer pensar nesse assunto. 

Já no primeiro dia do ano fez sol, um sol com chuva, triste e alegre ao mesmo tempo. Talvez represente bem como vai ser a vida em 2018. Espero que o sol brilhe mais vezes, e que o tempo permita que eu lembre a risada do tio com carinho e não com dor.  

Como não consegui mentalizá-los na virada, vou mentalizá-los agora, meus pedidos para 2018 são: saúde (pra mim e para aqueles que eu amo); foco, perseverança e sorte (aprendi que no fim das contas que o sucesso é baseado nesses 3 itens, em diferentes proporções dependendo do contexto); que minha família deixe de somatizar e que as crianças da pediatria não me deixem maluca. E mais importante, quero descobrir o que eu quero para os próximos anos.

Espero que esse que ano possibilite a realização de muitos objetivos.

Boa sorte pra mim. Descanse em paz.

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