VOLTEI AO 9º PERIODO

 Temática recorrente aqui no blog e acredito que seja também uma temática recorrente na mente humana: qual o sentido da vida? 

Pergunta capaz de gerar angustia até nos seres mais bem resolvidos.

Sinto-me muito feliz em estar onde estou, em ter as pessoas que eu tenho, adoro o caos que a minha vida se encontra. Mas por vezes sinto falta da calmaria, sinto falta de chegar do trabalho e não ter uma obrigação pendente martelando minha cabeça (um artigo pra ler, um resumo pra entregar,  um tema pra estudar, uma aula pra assistir...), não me lembro quando foi a última vez que pude ter uma rotina de "apenas" trabalhar.  E quando bate o cansaço sempre vem o infeliz questionamento "qual o propósito disso tudo?" e aí como um pensamento leva a outro, quase sempre surge o próximo questionamento "qual o sentido da vida?"

Na medicina, de modo geral, lidamos constantemente com a finitude da vida. No inicio eu tive muita dificuldade para lidar com esse sentimento. Achei que nunca iria me acostumar, que eu estava na carreira errada... Com o tempo isso foi ficando mais fácil... mas o que eu não tinha percebido é que não foi eu que mudei, e sim o ambiente que eu me encontrava. No PSF, durante os 3 anos que eu trabalhei, lidei muito pouco com a morte ou com doenças muito graves. Já na psiquiatria o adoecimento ocorre de forma muito singular... e apesar de doenças muito graves e que causam sim mortes, isso aparece como um plano de fundo na minha rotina. 

Nos últimos dias estou fazendo estágio no Hospital João XXIII, o principal centro de trauma de Minas Gerais, e um dos maiores da América Latina, e a sensação que eu tenho é que eu voltei a ser interna.

Me sinto de volta ao internato de clínica, de volta com as inseguranças e com as angustias daquela época. Tenho dificuldade em lidar com a gravidade dos casos e, vou te contar, estou em uma enfermaria (não é no Pronto atendimento) considerada tranquila. Queria muito ser a médica capaz de fazer e acontecer em momentos de crise, levar um paciente ao bloco cirúrgico e salvar a vida dele. Admiro demais quem faz isso --Tenho certeza que seria capaz de aprender a costurar vísceras se me dessem a oportunidade -- Mas acredito que temos algumas aptidões inatas que devam ser exploradas e lutar contra a nossa natureza por vezes é doloroso.  Me sinto lutando contra a minha natureza nos últimos dias. 

Odeio não ter tempo de ouvir o paciente, de conversar de verdade, de conhecer a história de cada uma daquelas pessoas, odeio não saber se o Sr Silvio tem filhos ou não, se tem gato ou cachorro em casa, como ele está se sentindo para além da dor no pé, do xixi e do cocô. 

Mas tudo bem, vou ficar lá apenas alguns dias, logo vou  a estar de volta para minha rotina atribulada na psiquiatria, reclamando e rindo da insanidade.  E tentando encontrar meu lugar no mundo, um sentido para tanto esforço e um propósito para continuar lutando todos os dias.


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